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Peça “UZ - A Cidade” em Botucatu

  • 19 de jul. de 2018
  • 4 min de leitura

Peça de escritor uruguaio gera reflexão e causa indignação pela acide

Elenco ouve elogios ao final da peça de espectadora com deficiência auditiva


Acontece em Botucatu o Festival de Inverno 2018, evento tradicional promovido pela Secretaria Municipal de Cultura. Na última terça, 17, as apresentações foram a peça “UZ - A cidade” escrito por Gabriel Calderon, no Teatro Municipal e Trio de violoncelistas na Pinacoteca. A peça é dirigida por Renato Turnes, patrocinada pelo Ministério da Cultura e Petrobras.


“Uz é uma pequena cidade onde os habitantes vivem suas vidas aparentemente perfeitas, guiados pelos ensinamentos da igreja. Até que Grace, a mais virtuosa daquele lugar, escuta a voz de Deus ordenando que mate um de seus filhos. As tentativas de cumprir essa missão abrem caminho para a revelação das hipocrisias e perversões escondidas pelos cidadãos, o que desencadeia um processo de descontrole crescente no qual a farsa propicia um ambiente cômico, mas também crítico e pungente.” (Sinopse da peça)


O último sinal dentro do teatro soou às 20 horas, horário marcado para o início do espetáculo. A platéia estava lotada, ao lado esquerdo cinco fileiras de cinco assentos chamam a atenção, os lugares estão reservados. Porém, apenas uma senhora idosa se acomoda, imediatamente um rapaz se levanta para cumprimentá-la, é o seu intérprete de LIBRAS. A produção do evento pensou nas pessoas deficientes auditivas.


Quando a trama começou o silêncio deu lugar ao mergulho reflexivo no ponto de vista de Gabriel Calderon ao descrever uma família fincada em seus próprios princípios e valores, os quais ela usava para julgar a todos.


A família tinha uma visão de mundo limitada, todo pensamento e modo de agir era definido pelo sagrado. A personagem principal Grace é descrita inicialmente como uma “Amélia” arrogante, pois acredita que se Deus fosse falar com alguém seria com ela mesma, afinal, ela não pecava. Seu marido Jack é um homem do tipo provedor, autoritário com os filhos e inseguro na sua vida sentimental. Os filhos: Thomaz e Dorotéia, possuem personalidades antagônicas, ele é um jovem servindo o exército, forte, disciplinado e preconceituoso. Ela é descrita como uma menina doente, que os pais e o irmão creem que sofre de autismo, por que Dorotéia não fala.


Somente esse panorama geral da família já mostra o viés político que dá o tom à história. Gabriel Calderon desconstrói para construir um argumento de percepção social no qual ele defende que a estrutura nuclear da família é a causa do caos socioeconômico e político em que a América Latina se encontra. Na visão do autor a sociedade é manipulada pelos dogmas da igreja, gerando o fanatismo religioso e o aumento da violência. Deus é uma voz que retrata uma personalidade arrogante, individualista e caprichosa, “como um menino que brinca de marionete mexendo com as formigas, numa caixa de areia”. Tanto que ele pede para Grace matar o próprio filho e quando ela diz que não poderia fazer isso ele pergunta: “Você ama mais ao seu filho do que a mim Grace?” Ao longo da história “Deus” pede para Grace matar o filho e se livrar do marido, sem propósito nenhum, apenas para ela provar que ama mais a ele. Durante o processo de confusão da história há crítica social nas figuras de personagens bem caricatos: o marido rejeitado pela esposa resolve “virar” mulher por que ele acredita que sua esposa está o expulsando de casa por que ela é apaixonada pela filha do açougueiro, o jovem militar perde o seu modelo masculino na figura do pai e sofre com a retaliação dos amigos de quartel. O líder religioso é um homossexual enrustido, a filha do açougueiro é uma jovem superprotegida e mimada pelo pai, trancada dentro de casa ela acredita que envelhecerá sozinha, por isso, sabendo por fofoca de que tem uma mulher apaixonada por ela, decide se rebelar contra o próprio pai para fugir. Nessas figuras Calderon critica a sociedade sem identidade própria, sem a base de sustentação. Qual base? A família. No fim da história Deus não tinha falado nada, nem com ninguém, tudo não passava de uma brincadeira de criança que mudou drasticamente a vida de toda a cidade.


Indignação do público

Em um dado momento da história, sem conseguir matar o filho e obedecer a “Deus”, a personagem Grace se revolta ao conversar com a voz e profere vários palavrões e frases obscenas para quem, ela acreditava ser Deus. Neste momento, um casal de idosos e algumas pessoas deixam a platéia indignados.


Gabriel Calderon

Escritor, dramaturgo uruguaio, tem 35 anos e é considerado um notável dramaturgo na América Latina. Suas obras já foram representadas No Uruguai, Chile, Espanha, Brasil, Argentina, entre outros países. A principal característica de trabalho literário é a farsa, o ambiente cômico, a crítica social e a acidez. Nas palavras do diretor Renato Turnes sobre UZ - A Cidade. “Em toda a América Latina esse é um movimento político e social aberto para o novo. Somos iguais neste processo de endividamento internacional, exploração, injustiça social, enfim, elementos que nos unem como povos. O que nos afasta é o idioma”. Depoimento de Renato Turnes em entrevista concedida ao site deolhonailha.com.br em 09/08/2016.

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